Brasil
5 anos atrás

A triste estória do país dos contrários e da história escrita ao reverso

A triste estória do país dos contrários e da história escrita ao reverso

Engraçado tratar da história do Brasil. Vivemos uma realidade às avessas.

Começa do começo, como não poderia deixar de ser. “Descobertos” que fomos em idos dum abril de 1500, quase como ao acaso, quando as calmarias conduziram (!?) graciosamente o cortejo dos navegantes lusitanos por toda extensão do Atlântico para aportarem no que pensaram ser uma ilha (!?).

De certo à época não havia internet, e não pôde o bondoso Rei imaginar que abaixo daquelas terras “descobertas” havia alguns anos por um tal Colombo, certamente deveria haver algo mais.

E não é que chegamos justamente na Bahia, onde uma incauta horda de silvícolas aguardava sem roupa (como não poderia deixar de ser) para trocar suas almas por quinquilharias e permitir aos novos senhores tomar conta do que havia “descoberto”. E não é que lá já estava um Escrivão, certificando e dando fé ao bom Rei sobre tudo o que se passava na sua nova propriedade.

Assim nos prolongamos em todo período colonial, como quintal da metrópole, por quatrocentos anos fechados ao mundo até que um louco Napoleão em seu sonho de conquistar o mundo voltou seus olhos contra a bela Portugal (que, diga-se de passagem, já à época tornara-se quintal da Inglaterra) fazendo o bom rei procurar refúgio em suas terras do além mar…

Engraçado mencionar, já aquela época as potências experimentavam a primeira revolução industrial. Escravos não rendiam mais dividendos. Precisavam-se, sim, de consumidores, assalariados com miseráveis salários para gastar comprando aquilo que necessitavam e tudo aquilo que não precisavam para fazer girar a grande roda do mercantilismo. E não é que pela graça da vinda do Rei, nesse mesmo período se abriram os portos brasileiros às mercadorias do estrangeiro. Engraçado apenas o estrangeiro resumir-se à velha Inglaterra. E passamos por isso também, uma revolução e uma mudança imposta não pela vontade das bases, mas pelo interesse dos detentores do poder.

E temos uma declaração de independência em que nosso imperador abandona a coroa para assumir o trono do país do qual nos separamos (!?). E uma libertação de escravos que prende a todos aos grilhões do selvagem capitalismo, igualando, realmente, a grande massa, na miséria.

Uma proclamação da República (!?), com modelos copiados e mal aplicados, e um federalismo fictício e artificial, tão às avessas quanto todo o resto, que tão somente muda o desenho das fronteiras das infecundas capitanias.

Revoluções após Revoluções, usando a velha massa de manobra no interesse das minorias. E uma Revolução às avessas, com militares no comando, usando a boa polícia política para realizar o trabalho sujo e carregar para sempre o fardo da culpa. E uma anistia que vale apenas para alguns. Uma constituição dos perseguidos que pretende ser cidadã, e que reconhece nas suas primeiras linhas todo o descaso e desgoverno de nossos quinhentos anos de ingerência, reafirmando-nos como um país subdesenvolvido, uma massa de pobres, marginalizados e desiguais

Realmente, havemos de defender a ideia. Somos um país que defende o interesse das minorias. A minoria que se perpetua ano após ano no poder, detendo a grande parte da riqueza do país em suas mãos e defendendo tão somente o seu interesse comum. Deixe a maioria a sua própria sorte, vivendo de bolsa esmola.

Pão e Circo para o povo, já era a máxima em Roma, berço da República. Nada mais precisam os miseráveis, num país onde o que se planta dá. Plantamos injustiça e desigualdade, outra coisa não se haveria de colher.

Mas não podemos culpar as minorias, nem persegui-los. Não podemos culpar o rei, tampouco nossos governantes, ou seus fiéis vassalos.

Talvez por viver, enquanto povo e nação, acostumado a ter sua história contada e nunca, de fato, ter contado nossa própria história, tenhamos nos acostumado com o paternalismo sufocante, que prefere nutrir a massa de desesperados com migalhas de subsistência, para que jamais pensem e jamais questionem.

Pergunte-se você e diga, estando hoje sentado na cadeira do bom Rei: preferias ter como animal de estimação um belo pastor alemão, sentado impotente com as cores da tua bandeira, obediente e servil, aceitando como paga tão somente teus afagos e as migalhas da tua mesa, sempre pronto a te defender da corja de injustos baderneiros, entregando-se graciosamente à morte na tua defesa? Ou ia preferir aquele cão de caça de procedência questionável, irrequieto e teimoso, com um faro amaldiçoado e um ladrar incansável, que insiste em tentar roubar a boa comida que só para ti e para os teus reserva? Aquele que você usa para buscar o produto da tua caça, mas que não se intimida em te envergonhar perante teus pares, cavando e fazendo aparecer tuas misérias e tuas vergonhas, e tudo aquilo que o Pastor te ajuda a esconder?

Certamente, eu como Rei, iria preferir o cão pastor e não aceitando o perdigueiro, o cabresto ou o adestramento, o faria desaparecer, ou misturando com o Pastor até que o sangue ruim não mais corresse em suas veias e se esquecesse dos seus primórdios, ou simplesmente o deixando morrer na inanição, fingindo o alimentar para não parecer mal aos olhos dos outros, até que o descaso e o abandono o matasse aos poucos. Assim morrem aqueles que pensam, que questionam e que pretendem mudar.

A verdadeira liberdade se faz de escolha. Da possibilidade de conhecer e compreender a realidade que nos cerca, de questionar as verdades inquestionáveis e com convicção firmada em argumentos, escolher aquilo que nos melhor prover, e não continuar a aceitar as escolhas que nos foram feitas, sabe-se lá por quem, sabe-se lá por quê.

Como tudo na nossa “estória”, também a nossa Revolução somente se pode fazer ao contrário. Pois nós sabemos, que somos bem culpados. E temos bem a consciência de que um mês do nosso serviço corriqueiro, absolutamente parado, não será sentido ou ressentido pela população ou por quem quer que seja.

E quiçá um dia, com o povo aos poucos acostumando a fazer o certo, passemos a tomar isso como regra e de todos exigir isso, e talvez abandonemos a “Lei de Gerson” e o famigerado “jeitinho”.


Fonte: Jusbrasil.

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